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Distração

Estavam os dois distraidos. Cada um na sua.
Quando se conheceram, nenhum sino bateu. Muitos assuntos em comum, muitas histórias parecidas. A curiosidade de saber um novo ponto de vista era o que reinava, a conversa fluia livre, leve, quase com admiração, quase com respeito. Risos sonoros e piadas com o drama.
Assim se seguiram os dias, agora com encontros mais frequentes, a intimidade crescia e o prazer tomava conta. Era bom, gostoso se esbarrar. Ficava nítida a reciprocidade, sorriso estampado, parecia não haver mais ninguem na rua, parecia que os dois haviam saído de casa para tal ocasião.
Um dia a lua estava cheia, o ar meio úmido e um calor fora do normal e os dois se encontraram sem querer mas não olharam na mesma direção.
Desde então tudo mudou, a alegria virou ansiedade, o abraço sufocante, o sorriso soava falso... Cada pensamento de bem querer e cuidado com o outro foi se tranformando em angustia e pessimismo, um silêncio velado. O ar ficou pesado, denso e o tempo demorava a passar. Cada pergunta a espera de uma determinada resposta e se essa não chegava só aumentava a sensação de desencontro.
Mesmo sem combinarem ou fazerem algo a respeito, raramente se encontravam. Toda a curiosidade havia acabado e não existia mais desejo.
Só por não estarem mais distraidos.

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