Pular para o conteúdo principal

Distração

Estavam os dois distraidos. Cada um na sua.
Quando se conheceram, nenhum sino bateu. Muitos assuntos em comum, muitas histórias parecidas. A curiosidade de saber um novo ponto de vista era o que reinava, a conversa fluia livre, leve, quase com admiração, quase com respeito. Risos sonoros e piadas com o drama.
Assim se seguiram os dias, agora com encontros mais frequentes, a intimidade crescia e o prazer tomava conta. Era bom, gostoso se esbarrar. Ficava nítida a reciprocidade, sorriso estampado, parecia não haver mais ninguem na rua, parecia que os dois haviam saído de casa para tal ocasião.
Um dia a lua estava cheia, o ar meio úmido e um calor fora do normal e os dois se encontraram sem querer mas não olharam na mesma direção.
Desde então tudo mudou, a alegria virou ansiedade, o abraço sufocante, o sorriso soava falso... Cada pensamento de bem querer e cuidado com o outro foi se tranformando em angustia e pessimismo, um silêncio velado. O ar ficou pesado, denso e o tempo demorava a passar. Cada pergunta a espera de uma determinada resposta e se essa não chegava só aumentava a sensação de desencontro.
Mesmo sem combinarem ou fazerem algo a respeito, raramente se encontravam. Toda a curiosidade havia acabado e não existia mais desejo.
Só por não estarem mais distraidos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Vitrine nossa do dia a dia

Quando me percebi estava dentro de uma caixa de concreto, iluminada por luz neon e ar refrigerado, cada cubo se conectando com escadas rolantes. Ao meu lado outros objetos felizes, alguns mais, alguns menos. No corredor andavam pessoas a nos classificar com valores abstratos de simetria, estética e beleza. Foi quando um deles me perguntou: você é importada?

Mudança de sol

Não estou fazendo nada do que deveria ser feito. Ao invés de procurar saídas, procuro formas de continuar onde estou, formas para amenizar a vontade de gritar, grito esse que nunca saiu, quando sair também será o ultimo. Parece que como numa célula, tudo atraí para o núcleo e fico rodando em volta do sol e rodando em mim mesma, sem parar. Os outros planetas fazem a mesma coisa, alguns até mais concentrados que eu. Pensei que a lua modificaria o movimento da ciranda, mas parece estar exatamente igual, com ou sem lua. Isso tudo é medo, dizem alguns, mas eu acredito que é preguiça. Preguiça de começar de novo em um outro sistema solar, pode novamente não ser o meu sol. Isso acontece demais. Quando fico triste, olho pra cima e vejo quantas estrelas ha no céu. Cada estrela com seus planetas, suas luas, suas vidas e tantas pessoas especiais. Será egoismo achar que só onde rodo existe vida?

Unha

Minha unha nasceu torta. Um dia olhei e vi um buraco, assim, bem no começo, bem no cantinho. Será que fiz algo errado? Durante o processo não percebi por onde a falha andava, mas agora eu vi. Cresce unha, vou te cortar. Não aguento mais buracos em minha vida.